Deve-se começar dizendo que este filme não é um filme, mas um documentário. Logo, documentários não seriam filmes? Gostaríamos, antes, de qualquer enunciado sobre a obra em questão, fazer uma diferença que opera apenas dentro do que aqui é visado. Filmes seriam narrativas construídas a partir de um real proveniente de um texto, fictício ou não. Assim, mesmo sendo baseado em uma história real, o enredo faria um intermediação entre o real da realidade e o real do filme. No documentário o enredo é capturado pela câmera. A ideia ou mesmo a escolha de uma sequencia ou determinado plano será sempre posterior ao real manifestado. Daí que o documentário "Camelos também choram", mais do que nos mostrar uma história, nos põem em viagem de uma hora e meia, nos faz habitar o deserto dos desertos (deserto de Góbi - mas Góbi é deserto na língua mongol), nos faz habitar entre nômades, nos faz habitar o estranho mundo da comunicação entre ventos, camelos e pessoas.
A história nos é contemporânea. A história é simples. Com o espaço aberto pelo deserto, propiciou-se a abertura de um universo que permite o trânsito de um mitológico. Isto fica evidenciado quando no início conta-se uma lenda sobre os camelos. O camelo originário teria recebido como presente do criador um par de chifres por haver amor em seu coração. Um veado maligno, invejoso, pede os chifres emprestados e o camelo, bondoso, empresta-lhe mas aquele nunca mais os devolve. Esta é a explicação para o comportamento do camelo de observar continuamente o horizonte. A espera de que lhe seja devolvido o que lhe fora tomado. A mentira porém só se sabe ao veado. Por esperar, o camelo mantém-se em bondade. Porém, veremos, a ideia de um animal bondoso será contraposta ao que se seguirá.
Algumas famílias no deserto vivem da criação de cabras e camelos. Ao redor desta criação, desta atividade, circula todo o cotidiano daquelas pessoas: retirada de leite, tosquia, etc. No primeiro momento, há o partejo de um camelo. Há um ritual de oferecimento ao novo camelo. Há ainda uma última fêmea prenhe que foge. Ela não dará cria no mesmo dia, mas amanhã. É esta fêmea a personagem central. Dizemos persona pois ela possui um nome: Ingen Temee, seu filhote chamará se Botok.
Ingen sofre para parir Botok. Seu parto dura dois dias e é preciso intervenção humana para que ela consiga realizar o trabalho. Algo diferente acontece, além de ser o primeiro parto de Ingen, camelo de cor caramelo, seu filhote, o potro, é albino. O acontecimento deste parto, não só sua dificuldade, mas o que ele produz, insere na dinâmica narrativa a possibilidade de se ver planos muito mais complexos. O potro branco e a consequente rejeição da mãe em amamentá-lo põe preocupação no grupo (poderíamos dizer coletivo, comunidade, cidade, etc). Reunidos no yurt (habitação típica da Mongólia), o avô começa a contar um outro relato sobre a criação do horóscopo e da vontade do camelo em ser um dos signos, porém a divindade recusa o desejo do camelo e acaba por lhe dar características de um animal e outro do horóscopo. Mas a história não prossegue pois o avô é interrompido. Ela já havia sido contada uma vez. Nota-se nas duas narrativas míticas uma mudança: na primeira, o camelo originário é presenteado pelo seu bom coração. Mas ele não pede. Ele recebe. Na segunda, o camelo que manifesta uma vontade, tem ela recusada e novamente, como compensação, algo lhe é dado. Esta segunda narrativa mostra o fato da rejeição. O potro branco não é solicitado, e é rejeitado. O camelo que antes tudo aceitara, agora recusa. Estamos diante da dicotomia atividade/passividade? O camelo é aquele que só espera e não age? Rejeitar é agir pela passividade?
[Em construção]
A história nos é contemporânea. A história é simples. Com o espaço aberto pelo deserto, propiciou-se a abertura de um universo que permite o trânsito de um mitológico. Isto fica evidenciado quando no início conta-se uma lenda sobre os camelos. O camelo originário teria recebido como presente do criador um par de chifres por haver amor em seu coração. Um veado maligno, invejoso, pede os chifres emprestados e o camelo, bondoso, empresta-lhe mas aquele nunca mais os devolve. Esta é a explicação para o comportamento do camelo de observar continuamente o horizonte. A espera de que lhe seja devolvido o que lhe fora tomado. A mentira porém só se sabe ao veado. Por esperar, o camelo mantém-se em bondade. Porém, veremos, a ideia de um animal bondoso será contraposta ao que se seguirá.
Algumas famílias no deserto vivem da criação de cabras e camelos. Ao redor desta criação, desta atividade, circula todo o cotidiano daquelas pessoas: retirada de leite, tosquia, etc. No primeiro momento, há o partejo de um camelo. Há um ritual de oferecimento ao novo camelo. Há ainda uma última fêmea prenhe que foge. Ela não dará cria no mesmo dia, mas amanhã. É esta fêmea a personagem central. Dizemos persona pois ela possui um nome: Ingen Temee, seu filhote chamará se Botok.
Ingen sofre para parir Botok. Seu parto dura dois dias e é preciso intervenção humana para que ela consiga realizar o trabalho. Algo diferente acontece, além de ser o primeiro parto de Ingen, camelo de cor caramelo, seu filhote, o potro, é albino. O acontecimento deste parto, não só sua dificuldade, mas o que ele produz, insere na dinâmica narrativa a possibilidade de se ver planos muito mais complexos. O potro branco e a consequente rejeição da mãe em amamentá-lo põe preocupação no grupo (poderíamos dizer coletivo, comunidade, cidade, etc). Reunidos no yurt (habitação típica da Mongólia), o avô começa a contar um outro relato sobre a criação do horóscopo e da vontade do camelo em ser um dos signos, porém a divindade recusa o desejo do camelo e acaba por lhe dar características de um animal e outro do horóscopo. Mas a história não prossegue pois o avô é interrompido. Ela já havia sido contada uma vez. Nota-se nas duas narrativas míticas uma mudança: na primeira, o camelo originário é presenteado pelo seu bom coração. Mas ele não pede. Ele recebe. Na segunda, o camelo que manifesta uma vontade, tem ela recusada e novamente, como compensação, algo lhe é dado. Esta segunda narrativa mostra o fato da rejeição. O potro branco não é solicitado, e é rejeitado. O camelo que antes tudo aceitara, agora recusa. Estamos diante da dicotomia atividade/passividade? O camelo é aquele que só espera e não age? Rejeitar é agir pela passividade?
[Em construção]